Negros morrem e adoecem mais com Covid-19 no Rio, diz Fiocruz

Por G1 | Portal Gazetaweb.com     22/11/2020 10h09

Treinamento de diagnůstico do novo coronavŪrus na Fiocruz

FOTO: Josuť Damacena/IOC/Fiocruz
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Dados do 2¬į Boletim Socioepidemiol√≥gico Covid-19 nas Favelas, mostra que quase a metade (48,19%) dos √≥bitos registrados no munic√≠pio era de negros

Treinamento de diagnóstico do novo coronavírus na Fiocruz

FOTO: Josué Damacena/IOC/Fiocruz

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou que a população negra carioca é a que mais morre e a que mais adoece com Covid-19.

Segundo o 2¬į Boletim Socioepidemiol√≥gico Covid-19 nas Favelas, quase a metade (48,19%) dos √≥bitos registrados no munic√≠pio ? no per√≠odo de 22 de junho a 28 de setembro ? era de negros.

Os dados foram obtidos com a prefeitura do Rio, e o levantamento foi lançado no dia 12 de novembro.

O estudo também concluiu que negros que vivem na capital são 44,7% dos pacientes infectados com o novo coronavírus, enquanto brancos são 37%, amarelos, 3,9% e indígenas, 0,2%.

Ao G1, Roberta Gondim, professora-pesquisadora da Escola Nacional de Sa√ļde P√ļblica da Fiocruz, sinaliza que o racismo estrutural, aliado a fatores como a precariedade das condi√ß√Ķes de vida e a falta de acesso √† testagem para Covid de forma precoce, tem contribu√≠do para a alta letalidade da popula√ß√£o negra durante a pandemia.

"O que acontece com a popula√ß√£o negra? Ela est√° mais exposta ao contato com o v√≠rus por quest√Ķes de moradia e de trabalho. Ela [tamb√©m] n√£o tem o mesmo n√≠vel de acesso, tanto √† testagem quanto √† hospitaliza√ß√£o e, consequentemente, ela morre mais", disse.

A pesquisadora ressaltou, ainda, o peso da falta de um home-office e de um transporte particular para ir ao trabalho.

"Quem é que pode ter acesso ao trabalho remoto? Quem é que, se não puder ter acesso ao trabalho remoto, pode ir para o trabalho no seu próprio carro, com todo o sistema de proteção? A classe privilegiada no Brasil não é a população negra. Por isso é que eu afirmo, com toda a certeza: a delimitação de classe no Brasil é de base racializada, é de base racial."

Para Roberta, os resultados do levantamento não são mera coincidência.

"N√£o √© √† toa. √Č um enredo que produz tramas sociais que informam que a popula√ß√£o de baixa renda, das classes C e D, sejam negras. Isso n√£o √© uma coincid√™ncia. Isso √© uma produ√ß√£o pol√≠tica-social, de base hist√≥rica, que se mant√©m porque os elementos que inauguraram essa forma de se produzir o mundo, eles se mant√™m em muitas medidas."

A pesquisadora tamb√©m fez pondera√ß√Ķes sobre a situa√ß√£o nas favelas do Rio.

Dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que nas comunidades 55,5% da população é de pardos, e 12,9% são negros. A classificação de cor no Censo do IBGE era declarada pelo próprio entrevistado.

"A transmissibilidade do v√≠rus em espa√ßos de alta aglomera√ß√£o √© muito maior. E as favelas s√£o constitu√≠das por ruelas, becos e domic√≠lios com alta densidade populacional. Ent√£o, o v√≠rus circula mais, e h√° menos acesso a servi√ßos de sa√ļde e corpos j√° precarizados pelas m√°s condi√ß√Ķes de vida", destacou a pesquisadora.

Negros morrem mais em bairros de maioria branca

O boletim apontou, ainda, que mesmo em bairros do Rio onde a maioria da população é branca, negros também são os que mais morrem e os que apresentam maior taxa de contágio pela Covid-19. Nessas áreas, segundo tipologia criada para o estudo, existem poucas ou não há favelas.

√Č sobre essa conclus√£o que Jussara √āngelo, uma das coordenadores do boletim e tamb√©m pesquisadora da Fiocruz, afirma que os dados exp√Ķem n√£o apenas a desigualdade na cidade como um todo, mas trazem tamb√©m a "desigualdade interna" nos bairros.

"Esses bairros classificados como 'sem favelas' são bairros onde a maior parte da população é branca. Então, esse indicador é muito forte para mostrar as históricas desigualdades sociais", ressaltou.

Bairros 'sem favelas '

Entre os 21 bairros indicados na pesquisa como "sem favelas", os cinco primeiros em n√ļmero de registros de Covid-19 s√£o: Centro, Leblon, Lagoa, Vila da Penha e Vista Alegre.

Para segmentar locais do Rio "sem favelas", os pesquisadores sobrepuseram um mapeamento de comunidades da cidade ao mapa do munic√≠pio, do Instituto Pereira Passos (IPP), e criaram o indicador, que ganhou as subdivis√Ķes.

Por exemplo, casos de bairros que apresentassem mais que 50% da área ocupada por favelas foram considerados no estudo como um locais com "altíssima concentração" de comunidades.

Sobre o Centro da cidade, os pesquisadores fazem uma ressalva: embora seja apontado como "sem favela", os estudiosos afirmam que a regi√£o concentra muitas moradias consideradas prec√°rias, configurando um "outro tipo de pobreza urbana".

Segundo os n√ļmeros, a taxa de mortalidade de negros v√≠timas da Covid em bairros apontados como "sem favelas" e majoritariamente brancos √© de 2,12 a cada 10 mil habitantes, enquanto a de brancos √© de 1,19/10 mil.

O estudo destaca, tamb√©m, que em regi√Ķes com "baixa concentra√ß√£o de favelas" a taxa de mortalidade da parcela negra da popula√ß√£o √© praticamente o dobro da parcela branca - 3,5/"Nesses bairros, d√° quase que para visualizar, por exemplo, quem √© que est√° morrendo. Se a gente fizesse um mapeamento efetivo desses CEPs dos bairros que a gente t√° chamando sem favela e baixa concentra√ß√£o de favelas, obviamente que a gente vai encontrar aqueles locais de concentra√ß√£o de baixa renda e que se reflete muito diretamente no quesito ra√ßa/cor", afirmou o pesquisador Carlos Batistella.

Em outro recorte, os pesquisadores calcularam a taxa de incidência de Covid em negros e brancos nos bairros classificados como "sem favelas".

Para negros, o n√ļmero chegou a 176,71/10 mil habitantes, e de brancos foi de 80,23/10mil.10 mil (negros) e 1,8/10 mil (brancos).