Lava Jato investiga se propina do dono da JBS a deputado do PMDB foi para Temer

Por Por Ana Paula Andreolla, TV Globo, Brasília     19/05/2017 20h00

Vídeo gravado pela PF mostra momento em que Rocha Loures deixa pizzaria em SP carregando mala com R$ 500 mil

Executivo disse ter 'certeza absoluta' que repasse foi negociado por Temer

FOTO: Ueslei Marcelino/Reuters

A Polícia Federal (PF) investiga se a propina paga pelo empresário Joesley Batista - dono do frigorífico JBS - ao deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) foi repassada ao presidente Michel Temer. Em depoimento à Procuradoria Geral da República (PGR), o executivo da holding J&F Ricardo Saud afirmou que tem "certeza absoluta" que o suborno foi destinado a Temer.

Ex-assessor especial do presidente da República, Rocha Loures foi gravado por agentes federais saindo de uma pizzaria, na zona sul de São Paulo, carregando uma mala com dinheiro repassado pelo dono da JBS para que o peemedebista - que foi afastado nesta quinta (18) do mandato de deputado - defendesse interesses da empresa em um processo em tramitação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Na gravação, o deputado do PMDB aparece , inicialmente, na porta do restaurante sem nada nas mãos. Ele olha para os dois lados e, então, entra novamente no restaurante.

Logo depois, Rocha Loures reaparece na fachada do estabelecimento comercial com uma mala. Antes de sair, ele volta a olhar para a rua e corre até um táxi que o espera nas proximidades. O parlamentar entra no veículo e vai embora.

Segundo a PF, dentro da mala havia R$ 500 mil, que seriam a primeira parcela de uma negociação de propina fechada entre Joesley Batista e Rocha Loures para que o deputado agilizasse um processo junto ao Cade de uma usina termelétrica do grupo J&F - a holding comandada pelo empresário de Goiás.

O dono da JBS contou aos investigadores da Lava Jato que a Empresa Produtora de Energia (EPE), pertencente ao Grupo J&F, estava perdendo cerca de R$ 1 milhão por dia em razão do monopólio da Petrobras na área de gás natural.

No acordo, contou Joesley à PGR, ficou acertado o empresário pagaria R$ 500 mil por semana durante 20 anos ao parlamentar do PMDB. Esse é o período do contrato da termelétrica com a Petrobras.

A principal linha de investigação da Polícia Federal é que parte da propina acordada iria para Michel Temer, que indicou o deputado do PMDB para resolver a situação em encontro com Joesley Batista no Palácio do Jaburu em 7 de março.

Na conversa na residência oficial da Vice-Presidência, Temer orienta o dono da JBS a procurar Rocha Loures para resolver o assunto.

Procurado por Joesley, o deputado peemedebista ligou para o presidente interino do Cade, Gilvandro Araújo para pedir que ele interviesse em favor da empresa. Duas semanas depois, o processo da EPE no Cade - que se arrastava há dois anos no órgão - foi solucionado.

A Polícia Federal cumpriu nesta quinta (18) um mandado de busca e apreensão na sede do Cade, em Brasília. Os investigadores procuravam provas que pudessem comprovar a versão do dono da JBS.

Intermediário

Um dos delatores da J&F, Ricardo Saud assegurou à PGR o deputado afastado Rocha Loures era apenas um "mensageiro" da propina paga pela empresa. O executivo da holding de Joesley Batista afirmou que o dinheiro "foi combinado por nós e Michel Temer".

"Eu posso fazer uma consideração? Eu queria só deixar uma consideração que é o seguinte... O Rodrigo Rocha Loures, ele é o mensageiro desse dinheiro só. Esse dinheiro foi combinado com nós e Michel Temer. Eu tenho a certeza assim, absoluta, que ele [Rocha Loures] nem sabia que esse dinheiro ia existir e tampouco que o dinheiro era para ele. Hora nenhuma ele tratou desse assunto", enfatizou Saud aos investigadores da Lava Jato.

Indagado pelos procuradores a confirmar a afirmação, o executivo da J&F é taxativo:

"Com as minhas palavras, eu tenho certeza absoluta que nós tratamos propina com o Temer. Nós nunca tratamos propina com o Rodrigo. O Rodrigo foi um mensageiro que Michel Temer mandou pra conversar com a gente, pra resolver os nossos problemas e pra receber o dinheiro dele. "

O G1 procurou a assessoria do Palácio do Planalto, mas até a última atualização desta reportagem não havia obtido resposta.