Coletivos se articulam contra decisão judicial que ameaça permitir a "cura gay"

Por Wanessa Oliveira | Portal Gazetaweb.com     19/09/2017 15h54

Grupos de Alagoas têm se unido com o objetivo de partir para um enfrentamento mais incisivo e politizado

Ativistas LGBTs em Alagoas querem discutir decisão no âmbito do estado

FOTO: José Feitosa

Preocupados com a decisão da Justiça Federal que permite a possibilidade de tratamentos de "reversão sexual", ativistas LGBTIs já têm se articulado para discutir a determinação judicial em Alagoas. Os militantes consideram que a determinação atende a interesses ideológicos de grupos alheios à saúde da população de lésbicas, gays, travestis, transexuais e intersexuais.

A decisão, divulgada no início da semana, tem provocado uma série de campanhas e petições. Proferida pela Seção Judiciária do Distrito Federal, na última sexta-feira, 15, a deliberação atende a um grupo de psicólogos contrários à Resolução 01/99, do Conselho Federal de Psicologia. Enquanto a Resolução do Conselho encaminha, entre outros acordos, a despatologização da homossexualidade, a ação popular cria margem de interpretação que possibilita uso de terapias de "reversão sexual".

De acordo com o integrante do Coletivo Quilombo Púrpura, há todo um histórico de criação de estereótipos e patologização dos corpos LGBTs na história da psicologia. "Desta vez, acontece através dessa determinação da Justiça Federal, que traz vários ciclos de interpretação, e um deles é a ideia de que o profissional pode dar, como achar melhor, a orientação para o sujeito que está sendo acompanhado", explica. 

Para o militante, essa decisão proferida em benefício a um grupo que já pensa na política de reversão sexual é preocupante."A gente sabe que, ao longo da história, esses tipos de tratamento só aumentam os transtornos psíquicos, não respeitam a individualidade dos sujeitos, e só servem para normatizar, para impor uma questão para com o outro, ao invés de entender com o outro", comenta.

De acordo com o doutor em psicologia social e docente da Universidade Federal de Alagoas, psicólogo Marcos Mesquita, o grupo que propõe essa liminar tem buscado exercer pressão no interior do Conselho Federal de Psicologia, com uma agenda conservadora. "Nas últimas eleições, esses grupos têm se fortalecido, embora tenham perdido. É um grupo que se intitula como psicólogos cristãos e já vêm aparecendo com maior força e visibilidade", relata. Entretanto, segundo Mesquita, o Conselho Federal pretende recorrer a decisão. 

"O Conselho Federal já se posicionou e tem muita clareza do posicionamento político que precisa ter. O Conselho Federal é marcado historicamente por posicionamentos críticos e à esquerda e vai recorrer no sentido de manter o conteúdo da Resolução, que é uma resolução que despatologiza a homossexualidade", declarou.

O estudante Jean Bonifácio, militante do Coletivo Rosas do Asfalto, comenta sobre o uso da internet como um instrumento de luta contra essas situações . "Tenho visto algumas pessoas usarem a tag #homofobiaedoença. Pode ser até considerado uma doença da sociedade, mas não concordo que seja doença, é mais uma construção social com base nesse conservadorismo, não só no Brasil. Então até comento que não tratem como doença, porque é algo que se pode mudar e se pensar de outra maneira, e se pode pensar de outra maneira. Além do mais, também espero que essas mobilizações também saiam da internet", acrescenta.

De acordo com o estudante, os coletivos LGBTs têm se articulado em Alagoas com o movimento intitulado Stonewall Vive, cujo o objetivo é partir para um enfrentamento mais incisivo e politizado, em busca de demandas sociais, como educação, saúde e segurança. A medida judicial vem a ser, dentro de todo um contexto de violência e vulnerabilidade social, mais uma pauta a ser debatida nos próximos dias. 

"Para gente, se trata de construir uma sociedade que seja, inclusive, diversificada. Sabemos que o Conselho está trabalhando para recursar contra essa medida, mas para gente dói muito só o fato de que essa ação tenha acontecido", comenta.