Mães universitárias encontram apoio no cuidado dos filhos enquanto assistem aula

Por Rayssa Cavalcante | Portal Gazetaweb.com     02/02/2019 19h00 - Atualizada às 02/02/2019 19h31

Proposta conhecida como Remad teve início em abril de 2018 e conta com 40 voluntários

Projeto funciona nos horários da manhã e da tarde 

FOTO: Arquivo Pessoal

Entrar na universidade e descobrir que está grávida ou já ser mãe e querer buscar um futuro melhor ao ingressar no ensino superior. São duas realidades vividas por muitas mulheres que caminham todos os dias pelos corredores das instituições com livros em um braço e um bebê no outro. 

Elas, que, entre uma mamadeira e outra, aprendem um novo conceito ao virar a página de um livro. São mulheres que lutam diariamente por um cronograma que se divide entre estudar e estar presente para o filho. Algumas delas não têm condições de pagar uma creche e precisam ter uma jornada mais 'corrida'. 

A estudante de nutrição Elisabeth Priscila, de 25 anos, precisava faltar aula e quase perdeu um período devido a isso. "Tinha dias em que minha mãe sentia dores na coluna e eu precisava ficar com ele. Atualmente, minha mãe já não pode mais me ajudar por causa dos problemas de saúde."

No entanto, tanto ela como outras estudantes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) foram beneficiadas com um projeto gratuito em que podem confiar e está, literalmente, ao lado da sala de aula. O grupo foi nomeado como Rede Mãos Dadas em Apoio às Mães Universitárias, popularmente conhecido como Remad. 

De acordo com uma das organizadoras do projeto e estudante de enfermagem, Jaqueline Montenegro, de 21 anos, a nomenclatura escolhida representa a ideia principal de união e solidariedade. "É muito comum a gente falar que quando ingressamos na universidade é cada um por si. O Remad vem contra isso. Somos pessoas e cada um tem suas dificuldades, porque não nos unir pra se ajudar. Daí vem o 'rede' que tem no nome".

Nele, ainda segundo ela, as mães podem deixar os filhos das 8h até as 12h e, após um período de almoço, as crianças voltam e ficam das 13h30 até as 16h30. Os 40 voluntários vindos de diversas faculdades de Maceió se dividem entre os turnos para deixar os pequenos confortáveis e entretidos enquanto aguardam a volta das mamães. 

Atualmente, o grupo atua no hall do bloco onde está localizado o curso de enfermagem. Todos os dias, os alunos organizam o lugar e realizam brincadeiras, contam histórias, fazem peças teatrais, colocam as crianças para dormir e até dão banhos - após a autorização da mãe. 

Elisabeth Priscila, de 25 anos, é mãe do pequeno Miguel e estudante de nutrição 

FOTO: Arquivo Pessoal
Elisabeth, mãe do pequeno Miguel, de um ano e dois meses, revelou que o filho está no projeto desde novembro de 2018 e que a ação foi uma das melhores coisas que aconteceu em sua vida.

"Eu adoro. Eles são muito atenciosos e sempre que acontece alguma coisa de diferente me mandam fotos avisando. Os voluntários dizem se ele comeu, se fez coco ou se colocou pra dormir."

PRIMEIROS PASSOS

De meta em meta, o projeto foi crescendo e ganhando forma dentro da Ufal. Segundo Jaqueline, a iniciativa surgiu quando estudantes da Chapa Mãos Dadas do Centro Acadêmico de Enfermagem começaram a olhar ao redor e perceberam a quantidade de mães que circulavam com os filhos pela instituição. 

"No nosso bloco tem quatro cursos: enfermagem, nutrição, farmácia e odontologia. Esses são cursos que predominam o público feminino. Lá tem muitas mães que fazem essa dupla jornada de estudar e cuidar do filho ao mesmo tempo. Diariamente, a gente via aquela cena de uma mãe com o filho no carrinho de bebê andando pelo bloco, eram quase três ou quatro por dia", explicou a estudante, antes de acrescentar que essas mulheres buscavam se revezar para ajudar umas as outras. 

"As amigas se ajudam pra poder assistirem as aulas. Chegavam até a levar aqueles berços portáteis pra colocar os bebês. Alguns professores até permitiam a entrada delas nas salas, mas outros não. E ainda tinha o incomodo caso o bebê chorasse no meio da aula, porque você teria que sair e isso, às vezes, interrompia a aula. Além disso, alguns alunos não se compadeciam da situação", lembrou.

Em um primeiro momento, O Remad não conseguiu engatinhar. No entanto, pouco tempo depois, a Ufal abriu um novo edital para a inscrição de novos projetos de extensão dentro da instituição. Foi nesse momento que Jaqueline, juntamente com duas amigas, teve um start e submeteu a proposta para avaliação. 

"Nós nos responsabilizamos em colocar o projeto no papel e levar para a professora Anne Laura, que amou e correu atrás de tudo com a gente", contou.

No dia 2 de abril de 2018, a proposta foi aprovada pela instituição e, segundo Jaqueline, um grande time de alunos voluntários começaram a ser recrutados. Ainda no mesmo período, as funções começaram a ser delegadas e o projeto dava os primeiros passos largos sendo cada vez mais coletivo. 

"Nós queríamos que se parecesse com uma brinquedoteca, onde a mãe pudesse levar seus filhos e deixar lá no momento da aula e nós [voluntários] iríamos salvaguardar a criança. Seria gratuito, porque se elas não podem pagar uma babá ou uma creche, não poderiam pagar para deixar seus filhos nesse espaço", completou a coordenadora do projeto.

CONQUISTAS PARA CRESCER

Voluntários brincam e mantém as crianças entretidas entre as aulas 

FOTO: Arquivo Pessoal

Começar algo do zero não é fácil e, quando se trata de um projeto gratuito, é preciso lutar para conseguir cada vez mais recursos. Assim, com o Remad não foi diferente. Conforme Jaqueline, o edital que aprovou o projeto previa o pagamento de uma bolsa, porém ela nunca foi efetuada. 

Dessa forma, maneiras criativas de garantir o material necessário tiveram que ser realizadas. "Nós fomos à luta. Precisamos de uma maneira para arrecadar os recursos. Daí veio a ideia de fazer minicursos. Nós abríamos as inscrições, que eram concluídas com a doação de um brinquedo, livro didático ou qualquer coisa para uma criança. Foi assim que arrecadamos nossos primeiros materiais", afirmou.

Além disso, ela destacou que outro projeto para crianças da Ufal também trouxe ajuda. As mães que confiam seus filhos aos voluntários também doaram banheiras, berços portáteis, livros e lápis de cor. Além disso, uma mulher achou o grupo no Instagram e ofereceu serviço para ajudar a conseguir dinheiro.

Em outro momento, o Remad se viu precisando de um tapete feito de emborrachado. Assim, com o apoio de uma empresa, uma rifa foi feita para conseguir o objeto.  "O tapete serve pra deixar as crianças confortáveis, sendo que ele é um pouco caro. Fomos atrás de empresas para ter o material e conseguir rifá-lo. Eles ajudaram pela segunda vez e nós compramos o objeto", contou Jaqueline. 

Tapete de emborrachado é montado pelos voluntários para deixar as crianças confortáveis 

FOTO: Arquivo Pessoal

No entanto, a luta para os voluntários e coordenadores ainda não acabou. Segundo a estudante de enfermagem, atualmente, uma das dificuldades que precisam ser superadas está no espaço onde o projeto funciona.  "Ainda não conseguimos uma sala só nossa. Anteriormente, soubemos que tinha umas salas que ficavam vagas durante o dia. Nós fomos à secretaria pedir para usá-las. Foi permitido, mas depois foi proibido. Então, voltamos pra o hall. Colocamos o tapete, os brinquedos e tentamos deixar as crianças confortáveis com o que temos."

FASE SATISFATÓRIA

Além das 13 crianças que participam do Remad, as mães de cada um também são beneficiadas com mais tempo para estudar e com boletins azuis. E, como revelou Elisabeth Priscila, o relacionamento com o pequeno Miguel também foi um dos fatores que melhorou muito devido ao longo período que passam juntos. 

E não para por aí. De acordo com a estudante Nayara Conceição, de 22 anos, o projeto contribui para que ela tivesse qualidade no tempo destinado aos estudos. "Saber que tenho esse apoio sempre que preciso contribuiu positivamente. Foi uma alegria e uma satisfação muito grande. Senti-me valorizada só pelo fato de ter pessoas pensando numa forma de melhorar isso", alegou, ao completar que o filho Benjamin, de 7 anos, ama participar da ação e que todos os voluntários passam uma empatia muito grande. 

Nayara Conceição, de 22 anos, é mãe do Benjamin e estudante de enfermagem 

FOTO: Arquivo Pessoal
Em virtude disso, a mãe do Miguel explicou ainda como ficou a nova rotina após a entrada do apoio na sua vida acadêmica. Conforme ela, o tempo para revisar os assuntos é curto quando está em casa, pois ela precisa ficar com o filho. Por isso, busca usar todo o período livre para ler e se preparar para as provas da universidade. 

"Nos dias que não tenho aula eu fico estudando. Dia de sexta, por exemplo, eu passo o dia todo na Ufal estudando. Nos dias que eu tenho aula só em um horário, eu fico estudando no outro. Eu não tenho mais o que reclamar a respeito. Não posso mais dizer que não tenho com quem deixar o meu filho pra poder estudar", confirmou. 

DOAÇÕES

Quem quiser doar ou fazer algum tipo de parceria com o projeto, basta acessar a página oficial do Instagram (@projmaosdadas) e entrar em contato com os coordenadores por meio do direct. Já a estudante da Ufal que deseja ter o filho no Remad, precisa preencher um formulário de inscrição e aguardar ser selecionado.

Também há outra forma de fazer parte do projeto. Segundo a coordenadora Jaqueline, um processo seletivo costuma ser publicado na rede social oficial do grupo para escolher novos voluntários. 

"As pessoas interessadas devem ficar ligadas na conta do Instagram e se cadastrarem no link que colocamos na bio. Nele, os interessados precisam preencher um questionário e depois nós fazemos a seleção através do perfil que melhor se encaixa com o projeto. Podem ser tanto estudantes da Ufal, quanto das demais universidades", concluiu. 

Remad recebe voluntários de diversas instituições de ensino superior de Maceió 

FOTO: Arquivo Pessoal